[Resenha] Naufrágios, de Akira Yoshimura

Capa do livro Naufrágios do autor Akira Yoshimura

Naufrágios

Sinopse: Isaku é um menino de nove anos que vive numa aldeia na costa do Japão medieval, sobrevivendo precariamente daquilo que o mar lhe dá - moluscos, peixes, conchas. Os aldeões também destilam sal para os povoados vizinhos, em grandes caldeirões sobre fogueiras que ardem durante as noites de inverno. A manufatura do sal tem, porém, uma utilidade oculta e macabra - as chamas que brilham na escuridão confundem e atraem barcos que passam pela costa, fazendo-os lançar-se sobre os recifes da ilha. Quando o naufrágio acontece, os aldeões saqueiam o navio, trucidam a tripulação e obtêm provisões para muitos meses. É por meio de Isaku que o leitor acompanha o cotidiano dos pescadores, que convivem com a penúria e a fome. E é pelo olhar assombrado e ingênuo do garoto que testemunhamos a tragédia que se abate sobre a aldeia quando surge na costa um pequeno barco à deriva - um barco com uma carga de inimaginável terror, destruição e morte.

Akira Yoshimura  
Editora Best Seller * 192 páginas

O livro "Naufrágios" nos traz uma história ambientada no Japão Medieval. Acontece numa vila de pescadores, composta de dezessete precárias casinhas, fincadas na encosta de uma montanha. Eles tem, como fonte de sustento, o pouco que conseguem cultivar no terreno pedregoso, o que colhem na floresta subindo a montanha, a pesca e a produção de sal (feita na pequena faixa de areia disponível),  que trocam por grãos na aldeia vizinha (há três dias de viagem), juntamente com o excedente da pesca. 

Mesmo vivendo sob extrema privação, isso não é o suficiente para alimentar a todos, e os chefes de família encontram duas alternativas, ambas extremas: vendem a si mesmos, ou a um membro da família em servidão (por três, cinco ou até dez anos), na troca de grãos que permitam ao restante da família sobreviver, e realizam o ritual  "O-fune-sama" todos os anostorcendo para que esse funcione.

"O ritual de O-fune-sama era realizado no período em que a aldeia era envolvida pelas cores do outono. Com o marido no leme, um barco transportando uma mulher de vinte e oito anos, grávida, deixava a estreita faixa de areia. Olhando para o horizonte, ela erguia uma pequena grinalda sagrada de palha enquanto o barco subia e descia a caminho de águas mais profundas. Ele por fim parava depois de ser conduzido com habilidade para além dos recifes. Os moradores da aldeia reuniam-se na praia unindo suas palmas em preces quando a mulher jogava a grinalda na água. A mulher grávida representava o desejo deles por boa pesca, e o lançamento da grinalda sagrada na água simbolizava o desejo de que um barco que passasse atingisse o recife diante da aldeia."
Para atrair O-fune-sama, além do ritual, os aldeões fabricam o sal na areia da praia à noite, acendendo imensas fogueiras, a fim de que os barcos, atingidos pelas tempestades, se orientem pela luz do fogo indo em direção à costa, e tenham seus cascos rasgados nos recifes. A partir daí ocorre a pilhagem de toda a carga e madeira disponíveis e a partilha justa entre toda a aldeia. 
"Como a maior parte da carga com certeza consistia em arroz, Isaku ficou imensamente feliz com a idéia de saborear tal delícia. Seu irmão e irmã menores nunca tinham experimentado arroz, e ele mal podia esperar o momento de servir a eles sopa de arroz. Podia imaginar como o delicioso gosto adocicado da sopa branca os deixaria surpresos."
O livro é narrado em terceira pessoa, os acontecimentos sob o ponto de vista de Isaku, um menino de 9 anos, que teve o seu pai vendido em servidão. Ele precisa agir como um homem, para ajudar a sua família a sobreviver em condições tão precárias. Precisa entender sozinho as tradições que o rodeiam, e aperfeiçoar suas técnicas de pescaria, mesmo sem ter o pai por perto para lhe ensinar.

Através dos olhos de Isaku, vemos as montanhas mudarem de cor durante a passagem das estações do ano, os diferentes cardumes que predominam em cada período de pesca, os tipos de insetos que aparecem conforme a época correta. Presenciamos rituais de nascimento, morte, casamentos e equinócios.

A narrativa é simples e envolvente, embora fique um pouco cansativa mais para o final do livro, já que as estações do ano começam a se repetir, e a rotina dos personagens também. Vale lembrar que esse não é o meu estilo habitual de leitura, então o que eu achei cansativo talvez não seja para outras pessoas. Apesar do final ser triste e abrupto, algumas lições podem ser aprendidas com essa leitura, dentre elas, dar valor ao que temos, porque quando se tem pouco, cada grão vale ouro.


Barco medieval

Aguardo o seu comentário...
Beijos... Elis Culceag.

24 comentários

  1. Falou as palavras chaves: Japão mediaval kkkk
    Amei a sinopse mas fiquei um pouco na dúvida quando vc disse que o final é meio cansativo...
    Mas acho que vou ler mesmo assim.
    bjos

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  2. Oi Fernanda!
    Esse não é o meu estilo habitual de leitura, então o que eu achei cansativo talvez não seja para você, mas vale a pena ler o livro pela diferença cultural e temporal que ele apresenta!
    Obrigada pelo comentário, vou incluir essa observação na postagem! Beijos...Elis Culceag.

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  3. Oi Elis!
    Gostei muito da capa!
    A história deve ser bem interessante.
    Bjs Samantha
    Só pra Menores

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    1. Oi Samantha!
      Você adora amarelo, não é?
      Você não imagina como a rotina desse garotinho de 9 anos é diferente da sua, você iria se espantar! Beijos...mamãe.

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  4. Oi Elis! :)
    Que excelente resenha!
    Nhain, minha última experiência com o tema "pesca a afins" não foi nada boa, mas como gostei da sua resenha, acho que vale a pena ler esse livro algum dia!
    Além disso, a história parece ser bem diferente, então fiquei curiosa!

    Beijocas.
    Artesã Literária

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    1. kkkkk Rafa, o que será que você pescou?
      Esse livro nos apresenta uma realidade tão chocante e diferente da nossa que acaba sendo interessante...
      Obrigada pela visita e bom finalzinho de feriado!
      Beijos... Elis Culceag.

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  5. Oi Elis!
    A capa do livro me lembrou algum livro de grandes navegações, sabe? Não gosto de livros repetitivos, sempre acabo desistindo. Mas esse me conquistou de alguma forma. Estranho, não?

    Um beijo,
    Luara - Estante Vertical

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    1. Oi Luara!
      O gosto por livros é algo muito pessoal, acho que é igual ao gosto por comida... nem todos gostam dos mesmos ingredientes, e o que é ruim para uma pessoa pode ser delicioso para outra rsrsrs. Obrigada pela vivita!
      Beijos... Elis Culceag.

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  6. oi Elis!
    Este também não é meu tipo habiatual de leitura, mas este é o charme dos desafios, né? Se fosse somente oque gostamos, onde estaria o desafio?

    Gostei de sua resenha, gostei da dica ( mas não sei se eu leria =D)
    Tenho uma opinião de que livros devem nos provocar 'reação'. Seja boa, seja má, mas deve nos 'tocar de alguma forma'. É assim que amadurecemos enquanto leitores...
    Quem bom que você conseguiu tirar lições desta leitura!
    Bjus, Sabrina

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    1. Oi Sabrina!
      Concordo com você. Estava receosa em não gostar do livro (essa minha mania de ler apenas romances), tanto que enrolei e li só na última semana de abril rsrsrsrs... mas não foi tão difícil quanto eu pensei, e deu para aproveitar a leitura.
      Beijos... Elis Culceag.

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  7. Elis,adorei a resenha!
    Fiquei curiosa para ler o livro,gosto de livros com histórias assim. E pelo que percebi ele parece ser bem emocionante. Ultimamente os temas de livros andam tão repetitivos, é bom ler uma história diferente. Obrigada pela dica ;)
    Beijos ;*
    http://coisasdemeninasarteiras.blogspot.com.br/

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    1. Oi Neyla!
      Realmente a história e o estilo de escrita são bem diferentes, creio que justamente por tratar-se de um escritor oriental.
      Espero que goste! Beijos... Elis Culceag.

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  8. Aaaah Japão *-* adoro e ainda mais medieval?
    Já seria motivo pra ler o livro correndo!
    Adorei a resenha, me deu vontade de ler mesmo eu sendo fraca para finais tristes rs

    Olha "Cidade dos Ossos" é muito legal sim.(pelo menos eu gostei muito)
    É verdade sagas nos deixam em ansiedade neh? Mas eu não resisto a elas rsrs A serie ainda não está completa ;/ Mas já tem 3 livros lançados.

    Tem resenha nova lá no blog, quer ler?
    http://falleninme.blogspot.com/ Desde já obrigada!

    -PatyScarcella

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    1. Oi Paty!
      Que bom que gostou :)
      Depois vou visitar-te.
      Beijos... Elis Culceag.

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  9. Não gostei muito da sinopse e por não ser o meu gênero habitual de leitura, eu não leria.
    Obrigado por seu recado pelo meu aniversário.*bye*

    Louca por Romances

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  10. Oi Marla!
    Eu sou viciada em romances, então entrei no Desafio Literário para dar uma diversificada, mas não abandono meus romances por nada rsrsrs...  Espero que tenha curtido bastante seu aniversário! Beijos... Elis.

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  11. É impressão minha ou este livro tem um ritmo mais lento, mais introspectivo?
    Eu nunca li nenhum livro da típica literatura japonesa, mas imagino que seja assim.
    Gostei bastante do enredo, e finais tristes são muito comuns nas histórias orientais, pelo menos se nos basearmos nos doramas japoneses e coreanos.
    Adorei a dica! Se tiver chance, vou ler sim!
    beijão!!

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  12. É isso mesmo Lia, ele tem o ritmo da marés, das passagens das estações, da migração dos cardumes dos peixes... a gente conhece cerca de 2 anos da vida do menino Isaku. Se for ler, depois me diz o que achou. Bjs...Elis.

    Em 5 de maio de 2012 16:08, Disqus escreveu:

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  13. Acho que esse livro vai me agradar muito, fiquei muito interessada primeiro por ser um livro de um autor japonês, e também gosto muito desse tipo de livro mais contemplativo e reflexivo, eu sempre me apego bastante ao modo como a história é narrada, às vezes mais do que pelos acontecimentos (eu fico um pouco admirada quando as pessoas reclamam de um livro de que eu gostei muito e dizem que não acontece nada, é muito parado). Muitas vezes a repetição é essencial para estabelecer o ritmo da vida daquelas personagens e não é necessariamente uma coisa chata. Embora não seja o seu estilo habitual de leitura deu para notar que você gostou do livro, é bom variar de vez em quando.

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  14. Cris
    Pelo que você explicou, acho que vai adorar o estilo narrativo!
    Acho que eu li ele rápido demais #PuxaOrelhaDaElis e não absorvi tudo o que ele tinha para dar, mas mesmo assim foi uma leitura proveitosa. Preciso me policiar para não atropelar o autor novamente rsrsrsrs...
    Bjs...Elis.

    Em 5 de maio de 2012 19:03, Disqus escreveu:

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  15. Oi Elis!! O final da sinopse desse livro me assustou... rs... Não sei se leitura oriental é a minha praia mesmo... hehe... Minha leitura do desafio foi complicada, e acho que não gostaria da sua também... Nós duas escolhemos escritores japoneses. Então acho que por enquanto vou ficar com os escritores ocidentais mesmo, rs, consigo entender melhor a cultura e entrar mais no ritmo.

    Beijo!

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  16. Te entendo perfeitamente... é tudo uma questão de estado de espírito. Acho que o nosso ritmo é mais acelerado! Bjs... Elis.

    2012/5/5 Disqus

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  17. Excelente leitura. Suave, cruel , real e poético. O pequeno livro mostra-se grande sobre as lentes de um personagem. Isaku, uma criança caminhando em um mundo onde a fome e a sobrevivência são elementos habituais e nos fazem refletir sobre nossas sortes. Gostei muito.

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    1. Obrigada pelo comentário Seido, a realidade chocante de Isaku realmente nos faz refletir. Bjs!

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