[Resenha] A travessia de Caleb


A travessia de Caleb - Geraldine Brooks 
Editora Nova Fronteira - 2012 - 392 páginas
Sinopse: Bethia Mayfield cresceu na pequena comunidade de Great Harbor entre um grupo de ingleses puritanos. Munida de um espírito inquieto e uma mente curiosa, Bethia escapa dos limites de sua rígida sociedade para explorar as praias da ilha e observar seus habitantes nativos. Aos doze anos, ela conhece Caleb, o jovem filho do líder de uma tribo, e os dois desenvolvem um laço secreto.

Nesse meio tempo, seu pai, pastor calvinista, desperta a ira de curandeiros ao tentar converter os Wampanoags à nova religião, e deve testar sua fé contra a magia deles em uma perigosa batalha que pode custar sua vida e até sua alma.

A amizade de Bethia e Caleb se torna um prêmio nessa disputa entre antigos e novos costumes, e, por fim, assegura uma vaga ao índio em Harvard, o tornando o primeiro índio norte-americano formado pela instituição - dos poucos fatos que perduram de sua extraordinária vida, Geraldine Brooks cria uma brilhante narrativa de paixão e fé, magia e aventura.


Entre dois Mundos 

É através dos olhos de Bethia Mayfield que veremos descortinar-se um dos mais belos relatos do confronto entre duas culturas.

1660. De um lado os colonizadores ingleses calvinistas, sua imposição aos “costumes civilizados” e religião, do outro, os nativos wanponoags vinculados a tradição pagã do culto a natureza e ritos ancestrais.

A Travessia será mesmo de Caleb?

Caleb é o vulgo cristão que Bethia “nomeia” Cheeshahteaumauk, o filho mais novo de um dos líderes tribais da ilha, um príncipe entre os wanponoags, belo, forte e diferente dos garotos ingleses. Ele a nomeia “olhos de tormenta” ao encontram-se casualmente num dos cantos isolados da paradisíaca ilha, ambos com 12 anos e, ávidos quanto ao questionamento de seu próprio mundo interior frente ao mundo que os cerca. 

Bethia é uma rebelde em todos os sentidos, inquieta, irreverente, insensata, possui um intelecto afiado e perspicaz, autodidata em línguas mortas e principalmente na língua nativa, que ela aprimora com auxilio de Caleb, a quem instrui no inglês, mediante encontros furtivos.

“Toda vez que nos encontrávamos, fazíamos uma grande cena, como se tivéssemos nos deparado um com o outro por coincidência, e fingíamos admiração pelo fato de nossos caminhos terem se cruzado. Ainda assim ele sempre fazia questão de me avisar, como quem não quer nada, onde pretendia pescar ou caçar nesta ou naquela fase da lua, a essa ou àquela altura do sol.” 

Tornam-se amigos secretos, pois era inadmissível aos costumes da época que Bethia tivesse um amigo do sexo oposto, quanto mais um nativo, tal fato seria o escândalo supremo, entretanto, ela nestes encontros, colocava em absoluto risco sua “reputação” e o fazia conscientemente:

“Eu tomava muito cuidado para que ninguém nos visse juntos, desistindo de encontrá-lo se pensasse haver a mais remota possibilidade de que alguém viesse em nossa direção.”

Durante essas tardes que os dois passam juntos, ele vai mostrar a ela sua visão pagã do mundo e ela lhe retribuirá com sua versão cristã, esses dois mundos serão a simbiose dos laços que os unirá. 

INSEPARÁVEIS
Dois jovens brilhantes em um mundo hostil.

Apesar de todo encanto que une nossos heróis, serão os costumes de cada uma das culturas as quais se vinculam, que os extirparão dos devaneios de possibilidade juvenil para realidade da vida adulta.

“ - Não posso mais andar com você porque amanhã os meus passos vão me escolher, e não eu aos meus passos. Amanhã será a lua dos caçadores. Tequamuck vai me levar para o fundo do bosque, longe daqui. Ali, vou passar a lua das noites longas, a lua da neve e a lua da fome sozinho.”

Mudanças abruptas e trágicas, irão aparentemente estabelecer um abismo entre essas almas gêmeas.

“Quem somos na realidade? Nossas almas são moldadas, nossos destinos são escritos por inteiro pela mão de Deus antes mesmo de nosso primeiro alento ? Nós criamos a nós mesmos, pelas escolhas que fazemos ? Ou somos apenas a argila, que é moldada até ganhar a forma proposta pelos que estão acima de nós ?”

São antagonistas de complexidade psicológica e equivalente poder, que irão estabelecer o pólo de conflito e obstáculos, para que Bethia e Caleb possam alcançar seu objetivo, como se a pressão social em si, já não fosse um grilhão forte o suficiente para suprimir seus sonhos de liberdade.

Mas será que almas gêmeas podem ser separadas? 

Grandes cenários são a moldura para um enredo magnífico com diálogos poderosos, nos quais profundos e delicados sentimentos são soprados em sonoridades ora cálidas, ora passionais, às vezes turbulentas como os ventos que abraçam ou fustigam a ilha.

Bethia, para uma mulher daquela época é tão impetuosa e selvagem como Caleb deveria ser, no entanto ele é enigmático e insondável como um Lord da mais alta aristocracia:

“... Prometeu roubou o fogo dos deuses. Disse que o fogo representava a chama do aprendizado, acessa pelos antigos gregos e passada até nós, que devemos mantê-la viva. Portanto, Bethia, eu sou um ladrão de fogo. E como ao que parece, o conhecimento não respeita fronteiras, vou levá-lo aonde puder. À luz do dia, nas salas de aula. À luz de velas, com seus livros. E, se necessário, entrarei na escuridão para obtê-lo.”

Animus e Anima. Caleb e Bethia, um é a face do outro, juntos são fortes, ousados, valentes, determinados, ilimitados, infinitos em sua dualidade. Extraordinários!

Enfim, é deste modo que essa Travessia nos transpassa com sua profundidade e sério questionamento sobre a condição da mulher na sociedade, a violência da colonização e seus efeitos sobre as culturas ancestrais, a exclusão social, mas sobretudo nos impõe uma reflexão sobre o amor e o sentido da vida.

Recomendadíssimo!
Para quem tiver a ousadia de fazer a Travessia.
Nos vemos na Ilha.

21 comentários

  1. Adoraria ler este livro. Dois adolescentes descobrindo o mundo e suas diferenças.

    soniacarmo
    retalhosnomundo.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
  2. Eu sou louca para ler esse livro desde que eu vi o nome da autora, eu nem precisava saber sobre a história, li outro livro da autora e fiquei encantada, amei a sua resenha, só me deixou mais louca ainda para ler, quem sabe eu não ganho no sorteio né hahah

    beijos, Lu
    Lendo ao Luar

    ResponderExcluir
  3. Espírito de aventura, coragem, pioneirismo...elementos que me atraem muito...

    ResponderExcluir
  4. Oie...
    Passando pela primeira vez
    Não conhecia o livro mais achei bastante interessante!
    Dica anotada!
    Quem sabe será minha próxima leitura... =)
    Obg pela visita lá no blog!
    Tem resenha nova lá se vc quiser ir lá e deixar um coment...
    -fallen In Me
    Bjão

    ResponderExcluir
  5. Aventura, amor, cultura e tempo antigo, esse livro me chama muito a atenção, é a historia é linda, esse tipos de amores são com certeza encantadores, mas nunca tinha ouvida falar da autora, agora seria uma ótima oportunidade!
    Parabéns pela resenha, é direta e dinâmica!

    ResponderExcluir
  6. Eu vi este livro no sorteio do blog e gostei logo da capa, agora tive a oportunidade de ler a resenha e fiquei mais afim de ler do que antes, Quero sim fazer esta travessia, conhecer mais sobre esta época.

    Bjos!!
    Cida
    Moonlight Books

    ResponderExcluir
  7. Não tinha lido resenha dele ainda e me surpreendi, vou querer ler.
    Bjs, Rose.

    ResponderExcluir
  8. Ai kii historia linda! dois jovem super diferentes, mas que viram na diferença um amor tão surpreendente, gostei muito da resenha, agora pude entender o pq de me falarem muito bem dessa autora.

    ResponderExcluir
  9. Não conhecia o livro mas essa resenha me deixou com muita vontade ler e conhecer como vai se desenrolar essa estoria de amor com tantas diferenças.

    ResponderExcluir
  10. Nunca tinha ouvido falar desse livro, mas parece ser tão perfeito! *-* Curiosa pra saber qual foi o destino desses dois, acho tão cruel crenças diferentes separarem as pessoas. Fora o fato de não poderem ser amigos por ser de sexos diferentes... difíceis esses tempos.

    Ju
    Entre Palcos e Livros

    ResponderExcluir
  11. Interessante a resenha,capa criativa,na história Bethia conta em uma narrativa entre os eventos passados e presentes, jornada solitária de um jovem,reflexões: políticas, religiosas e sociológicas

    ResponderExcluir
  12. Muito interessante esse livro e a frase que me chamou atenção na sua resenha foi "sério questionamento sobre a condição da mulher na sociedade"
    Sua resenha ficou ótima e fiquei interessada em ler esse livro ;)

    Beijinhos
    Renata
    http://escutaessa.blogspot.com.br
    http://www.facebook.com/BlogEscutaEssa
    @blogescutaessa

    ResponderExcluir
  13. Oi Elis,
    Que bacana essa história, não sabia que a trama do livro era essa, parece ser um livro super legal.
    Adorei a sua resenha e fiquei encantada com o vídeio, o lugar é lindo, tranquilo... quero morar lá :)
    Beijinhos
    Renata
    http://escutaessa.blogspot.com.br
    http://www.facebook.com/BlogEscutaEssa
    @blogescutaessa

    ResponderExcluir
  14. Oi Rosem! Oi Elis!
    Adorei a resenha. Já tinha visto o livro sendo sorteado (aqui no blog, inclusive), mas não conhecia a história e gostei bastante. É bem o estilo de história que me atrai e que consegue me prender.
    Beijos
    http://coisasdemeninasarteiras.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  15. Hey,

    Gente adorei o livro, romance não é muito minha área, mas esse livro (e Sussurro - Hush Hush) eu realmente gostei!!

    Agora to com muita vontade de ler esse livro (mas acho que vai esperar tenho uns 20 livros ainda pra ler e vou para o EUA dia 15 e não posso levar tantos livros, :S, tenho que escolher só uns 3, Bua Bua...) mas então a resenha ficou legal, mas assim o livro é escrito com qual linguagem?

    Luís Eduardo Partichelli Potrich
    Lexus
    @blogexlibris
    blog-exlibris.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Luis,

      Escrita em 1ª pessoa sob o ponto de vista de Bethia. Boa leitura e viagem,se passar por massachusetts aproveite para fazer a travessia.

      Excluir
  16. Parece-me ser uma história linda e eu me senti com vontade de ler o livro e conhecer mais esses dois personagens: Caleb e Bethia. Vou ler esse livro com certeza. amei a resenha.

    ResponderExcluir
  17. Gosto das suas resenhas, são bem completas.
    Não conhecia esse livro. Não sei também se iria ler sabe?
    Para aqueles que curtem acho que é uma boa pedida!!!

    ResponderExcluir

Esse espaço também é seu!
Vou adorar saber a sua opinião passional :)
Seu comentário será publicado em no máximo 24 horas.
Beijos!