[Resenha] A garota que tinha medo

A Garota que tinha Medo - Breno Melo

A garota que tinha medo - Breno Melo
Sinopse - Chiado Editora - 2014 - 280 páginas


Ele a entrega em nossas mãos, ela nos revela sua intimidade, seus segredos, quando menos percebemos a carregamos em nossos braços, em carne viva, tomada por suas profundezas escuras; aturdidos folha a folha trilhamos a seu lado o desconhecido em uma busca alucinada pela saída desse Hades penetrado e, gradativamente a escuridão é preenchida pela aurora, a Perséfone contemporânea transforma-se numa neo-Alice que olha nos olhos do coelho e diz: - A toca sou eu!   

Há muito tempo não mergulho tão fundo, Breno Melo é um poeta, e poeticamente nos oferece em sacrifício sua personagem Marina, que em 1ª pessoa nos faz um relato intimista, confessional e contundente de sua queda, imersão e ascensão na Síndrome do Pânico.

“Eu era uma chaleira que apitaria cedo ou tarde. Seria bom que alguém abrandasse o fogo.”

Marina nos insere timidamente em seu cotidiano, que converge com o de muitas garotas em sua idade: pressão pré-vestibular, familiar, emotiva, insegurança quanto ao futuro e stress por tentar controlar todas as pontas desse emaranhado. 

A narração intercalada de diálogos, nos revela um drama de controle familiar: um pai que adota uma postura distante X uma mãe autoritária e controladora, resultado: Marina é controladora, perfeccionista e, obviamente por influências maternas, assombrada por uma religiosidade dogmática; junte-se a isso um quadro de baixa autoestima, carência afetiva e pronto, eis o ambiente psíquico perfeito ao transtorno.

A trama ambientada em Assunção, nos coloca a par de aspectos históricos e culturais do Paraguai, Marina faz inúmeras comparações entre ela e o país, como ambos encontram-se esbulhados, no mesmo sentido faz referência a personagens da mitologia bíblica ou da literatura aos quais equipara ao seu drama, deste modo, como o conflito da trama é individual, o confronto da protagonista é um embate entre a fé e a razão.

Podemos entender a cisão entre o racional e irracional diante dos surtos “crise” que são descritos com autenticidade aterradora e crescente, conforme o espaço temporal entre uma crise e outra decresce, a ponto de Marina isolar-se gradativamente por puro terror de entrar em “crise” em lugares públicos, como em uma masmorra cada vez mais profunda, que fecha porta sobre porta, até deixá-la em um pequeno cubículo, neste ponto a razão fala mais alto, uma luz no fim do túnel lhe estilhaça o preconceito, enfim “partiu” ajuda psiquiátrica. Uffffffff!

“Eu tentava ser perfeita e não me adaptava a uma realidade imperfeita, cheia de buracos e lacunas. Meus pensamentos eram fixos, limitados, e eu não me adequava a esse mundo, mas, ao contrário, tentava adequá-lo a mim.”   

Estamos na metade do livro quando inicia-se o tratamento que o autor expõe minunciosamente, de forma clara e não menos emocionante pois não visa a cura, mas estabilizar uma série de condutas: redimensionar a vida, abandonar padrões de crenças e comportamento, desvincular-se de antigos hábitos, algo do tipo: Os 12 trabalhos de Hércules, para os quais não há nenhuma garantia OMG! A Blogosfera será seu instrumento de mobilização, apoio, e troca de experiências com outros panicosos, reflexo de como a Síndrome afeta silenciosamente inúmeras pessoas. Vale ressaltar as geniais entrelinhas com seu psiquiatra e sua terapeuta, a influência que ambos compartilham em sua revalidação psíquica é Sensacional!

O brilhante Breno Melo pensou em todos os detalhes e agregou-os em uma composição perfeita, sua escrita é cativante, fluída, pontuada de tiradas irônicas e inúmeras citações que suavizam a intensidade do tema, esse ritmo nos conduz a uma montanha-russa de emoções, com altos e baixos até culminar com o clímax, que nos conduz a conclusão em uma sequência realista mesclada de perdas, conquistas e romance em terras ancestrais.

Claro que tiveram outras personagens: Julio, Maite, Joana, Davi hummmm!... Entretanto são apenas pano de fundo frente a dimensão que Marina alcança e até pelo contexto da obra, com exceção de Péqui, particularmente a vejo como a criança interior de Marina, sua “pequena princesa” hahaha!

Envolvente, inquietante, comovente, esclarecedor. A garota que tinha medo é um daqueles livros que nos faz rever nossos valores e nos transforma. Marina nos faz “ver” com empatia, ou seja, com “o coração” a realidade.

Afinal: “... O essencial é invisível aos olhos.” - Antoine de Saint-Exupéry.

Essa leitura foi uma cortesia do autor Breno Melo.
E vocês já leram? Estão lendo? Comentem aqui. By.:.

12 comentários

  1. nunca li nada do autor... e também ainda não li nenhum livro com algum personagem com essa síndrome... nossa só de ler essa resenha deu pra perceber que Marina tem um monte de problemas em.. só acho que não seria a leitura ideal pra mim no momento..

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  2. Até um tempo atrás eu não sabia que era de um autor nacional, e acho muito bom que os nossos escritores venham crescendo tanto e sendo mais valorizados.
    Gostei do assunto tratado em A Garota Que Tinha Medos, dá pra criar um empatia pela personagem logo de cara, porque acho que todo mundo passa pela mesma "pressão" que ela passou, e podemos ver que cada pessoa reage de uma forma diferente nesses casos. E de quebra traz aquela liçãozinha de vida pra gente.

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  3. Oi, eu já li um livro do Breno e confesso não gostei muito não. Mas vou dar uma espiada neste, pois o enredo parece ser melhor.
    Bjs, Rose

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  4. Rosem!
    Abordar um tema como Síndrome do Pânico em um livro, tem de ter muito embasamento e pesquisa. Espero que o autor não divague em seus conceitos.
    Se nos faz pensar e repensar posturas, cabe a leitura.
    cheirinhos
    Rudy

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  5. confesso que mesmo trazendo esse drama mais a tona, essa aflição e esse medo que permeia as páginas interessante não me atrai pela história em si!
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  6. Ainda não li nenhum livro que aborda o tema Síndrome do Pânico e assa resenha me deixou bastante interessa em conferi essa história.

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  7. Eu vejo essa historia em um complexo contexto bem bom .é tanta pressão para essa garota , gente não é fácil lidar com essas situações , eu arrisco a ler ,me parece um livro com uma excelente leitura ,encantadora que te deixa muita emotiva e com suspiros ao logo das paginas ,quero ler esse livro sem dúvida e tirarei minha dúvidas que tenho .Boa resenha ,me surpreendeu bastante .

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  8. Oi, Rosem! Já tinha visto o livro por aí, mas nunca tinha me interessado por conta da capa (sim, um erro grave rs). Nunca imaginaria que trata de um assunto assim, tão delicado. Deve ser uma narrativa muito rica em detalhes, já que retrata a vida de Marina e seus conflitos internos. Eu me interesso muito por "temas" psicológicos e fiquei muito interessada em ler o livro. E o autor escrever sobre algo tão difícil e ainda assim conseguir suavizar com passagens até mesmo irônicas, me deixou ainda mais curiosa para conhecer o trabalho do Breno!

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  9. Oi Rosem :D

    Olha, apesar da resenha positiva eu não me sinto tentada a ler o livro. Acho a síndrome do pânico um tema que deve ser muito bem trabalhado, e confesso que até me assusta um pouco, pois acho que é uma das síndromes que mais consome a pessoa. Se tiver oportunidade irei ler o livro, espero que minha opinião mude ..

    Bj.
    Passeando com os livros

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  10. ainda não conhecia este livro e apesar de não ter gostado da capa eu me interessei bastante pelo mesmo. Esta premissa envolvendo este tema realmente me deixou bastante intrigado, com certeza este livro é uma grande lição de vida, a parte que mais se destacou na resenha para mim foi quando vc disse que muitos a nossa volta resolvem nos afastar e excluir o problema da vida deles, sei bem o que é isso rsrs. Enfim, amei a dica de leitura, não conhecia o livro e fiquei muito curioso para conhecer toda a história da Marina. Abraços.

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  11. Olá!
    Não li nenhum livro desse autor...e o que mais me chamou a atenção por ser tratar de uma Síndrome que está cada dia mais presente nas vidas das pessoas, umas com pouco menos, outros com um pouco mais acentuado...mas no mundo em que vivemos realmente é difícil se adequar...gostei, me interessei!
    Um super bjo!

    Alê - Bordados e Crochê
    Fã Page

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  12. Esse livro é muito bom, inclusive gosto muito da abordagem linguística que Breno usou em em: A garota que tinha medo posso dizer que ele foi muito feliz... :)))A Marina é uma personagem que a cada página vai se tornando mais real ,quem já leu vai sentir isso e ela pode até se tornar uma parte da pessoa que está lendo.rsrssr(Sim me identifiquei com o livro srsrsrs) Teve diversos momentos nas quais me identifiquei com a menina ao ponto que parava a leitura e mostrava para a Mari, parecia que muita das coisas relata tinham sido retiradas da minha própria história, isso foi algo que me fez gostar demais poder ter tanta proximidade com a personagem. ...

    ^_^ ^_~ ^o^ ^_____^

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