[Resenha] Contos fantásticos do século XIX

(O fantástico visionário e o fantástico cotidiano)
Companhia das Letras - 2004 - 520 páginas
Sinopse: Os Contos fantásticos do século XIX foram selecionados pelo escritor Italo Calvino para uma série da televisão italiana, em 1983. Aqui estão as várias faces do sobrenatural: são histórias de fantasmas e de horror, do onírico, do macabro, do exótico e do misterioso.
Os contos foram escritos por 26 autores do século XIX: de Hoffmann e Walter Scott a Kipling e H. G. Wells, passando por Gogol, Poe e Andersen, entre outros, além de autores considerados "realistas" famosos, como Balzac, Dickens, Maupassant e Henry James. Todos procuram, atrás da aparência cotidiana dos fatos, um mundo encantado ou infernal que, mais do que assustar o leitor, o deixe perplexo: é verdade ou mentira, sonho ou alucinação?

Ítalo Calvino é um dos mais brilhantes autores italianos e destaca-se na cena contemporânea como um expoente do realismo fantástico, sou apaixonada pela escrita de Calvino, ler uma antologia selecionada por esse mestre da literatura fantástica era principalmente uma forma de penetrar em suas referências, e como em “As cidades invisíveis”, me deparei com um dos melhores livros de contos que já tive em mãos.

Na abertura Calvino dá uma mega aula sobre o conto fantástico e o elemento sobrenatural que ocupa o centro dos enredos nos 26 contos selecionados, vejam que magnífica definição:

“ Seu tema é a relação entre a realidade do mundo que habitamos e conhecemos por meio da percepção e a realidade do mundo do pensamento que mora em nós e nos comanda. O problema da realidade daquilo que se vê – coisas extraordinárias que talvez sejam alucinações projetadas por nossa mente; coisas habituais que talvez ocultem sob a aparência mais banal uma segunda natureza inquietante, misteriosa, aterradora – é a essência da literatura fantástica, cujos melhores efeitos se encontram na oscilação de níveis de realidade inconciliáveis”.

Na introdução ele nos fala das origens dessa vertente, sua herança, referências, as regras que se ateve na seleção dos autores e a interligação entre os mesmos [ele escolheu os melhores dos melhores e transformou esse livro em um clássico digno de colecionador]. Com isso, Calvino nos desvenda o movimento literário infundido pelo romantismo alemão no início do século, bem como as influências góticas inglesas delineadas pelo espetacular do “conto maravilhoso” francês e pelo desenho linear do “conto filosófico” voltairiano onde nada é gratuito e tudo mira a um final.

Houffmann, destacando-se entre todos foi a forte influência da época, assim Calvino dividiu o livro em duas partes [na Itália são dois livros]. Na primeira parte - “O fantástico visionário” - 12 contos “à la Houffmann”, do início do século quando originou-se o movimento, e aqui todos os ingredientes do romantismo visionário estão representados: o perverso, o oculto, o enfeitiçado, o espectral, o erótico, o vampiresco, o macabro. Abrindo com Jan Potocki, de 1805 em “História do demoníaco Pacheco”, e fechando em 1838 com o mais famoso autor de histórias de fantasmas da literatura inglesa vitoriana: Joseph Sheridan Le Fanu, com “O fantasma e o consertador de ossos”, como já declara o título uma “ghost story”.

Na segunda parte - “O fantástico cotidiano” - prepondera a influência da imaginação negra, gótica e ressalta autores como Dickens [O sinaleiro,1866] e Edgar Alan Poe [O coração denunciador,1843], onde o sobrenatural é mais sentido do que visto, pois vincula-se a dimensão interior, mental, psicológica que atinge seu ápice na intangibilidade imaterial de Henry James [Os amigos dos amigos,1896].

De modo peculiar os contos foram unificados em uma sucessão cronológica do início ao final do século XIX, para que possamos acompanhar a evolução da interioridade do indivíduo, do inconsciente e no decorrer da leitura percebemos que conforme nos aproximamos do século XX, mais observamos uma interiorização do sobrenatural como em Turguêniev [O sonho,1876] e Leskov [O espanta-diabo,1879]. Entre tantos contos magníficos no sentido “OMG”, indico “O homem de areia”, afinal foi com Houffmann que tudo começou e sua obra é impar, de modo que iniciar o livro pelo “mestre do fantástico” já te coloca no clima.

Enfim, a narrativa alternada entre 1ª e 3ª pessoa, é sempre envolvente e impressionante se você aprecia o sobrenatural e gosta de excelentes narradores sente-se ao pé da lareira ou da fogueira e divirta-se com essa excelente leitura.

Recomendado aos amantes dos clássicos.

Essa leitura foi uma cortesia da Companhia das Letras.
Aguardamos seus comentários! By.:.

5 comentários

  1. além de uma forma de entreter creio que seja uma boa forma de compreender e estudar sobre a constituição e expansão do gênero textual
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  2. Já estava bastante interessada em ler esse livro só pela sinopse, e agora depois de ver essa resenha fiquei ainda mais ansiosa em conferi isso tudo, curto muito sobrenatural.

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  3. Olá Rosem!!!
    Eu não sou muito fã de contos, porém quando vejo Poe no meio deles fico louca para ler.
    Além disso contos sobrenaturais e com uma pitada de terror me chama atenção, então esse livro é perfeito.
    Adorei a resenha e parabéns o/

    lereliterario.blogspot.com

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  4. Olá!
    Não conheço esse autor! E fiquei bem interessada de ler esse livro.
    Faz mto tempo que não leio contos!
    E esse é do jeito que gosto! Cheio de suspense, kkkk, terror e tal!
    Gostei!
    Um super bjo!

    Alê - Bordados e Crochê
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  5. Calvino é um gênio, uma excelente seleção de histórias! Um livro pra ler e reler sempre, muito bom pra leitores e também pra aspirantes a escritores!

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