[Resenha] Sempre vivemos no castelo

Sempre vivemos no castelo - Shirley Jackson

Sempre vivemos no castelo - Shirley Jackson
Sinopse - Suma de Letras - 2017 - 200 páginas


O mal está fora ou está dentro? O mal são os outros ou somos nós? Em “Sempre vivemos no castelo”, somos surpreendidos por uma narrativa inquietante, já nas primeiras páginas temos a sensação de que algo está fora de contexto, como um relógio girando para trás ou goteiras pingando do solo para o teto. Um certo estranhamento? Bem vindos ao Universo peculiar de Shirley Jackson.

Ambientada em uma pequena comunidade rural, a trama gira em torno dos três sobreviventes da família Blackwood, os outros foram assassinados durante um trágico jantar: “Envenenados”. Constance Blackwood [Connie], que era a cozinheira regular da família, foi acusada, julgada e absolvida, e retorna ao núcleo familiar onde passa a ser tutora de sua irmã mais nova Mary Katherine [Merricat] e do tio Julian, que ficou com a saúde debilitada.

“O pessoal do vilarejo sempre nos odiou.” E Merricat em seus delírios deseja vê-los mortos.

A história é contada em 1ª pessoa sob o ponto de vista de Mary Katherine “Merricat”, afinal ela é a única que sai da mansão [lá fora onde estão os ruins] para buscar mantimentos no vilarejo, já que Constance nunca superou o que aconteceu [parece que as pessoas do vilarejo também não, os Blackwood são considerados “estranhos”], assim Merricat duas vezes por semana enfrenta um sistemático Bulling do pessoal da vila, com todo tipo de provocação:

“Merricat, Merricat!”
“Cadê a velha Connie – está em casa preparando o jantar?”

Raiva e medo norteiam os dois lados da equação, as pessoas, até as crianças acusam indiretamente Connie de ser uma assassina e Merricat tem um amor obsessivo por sua irmã, imaginem o clima tennnnso, em seu intimo ela tem pensamentos de arrepiar, mas por fora permanece impassível, dotada de complexidade ímpar nos lega grandes momentos na trama.  

Em sua vasta propriedade [cercada para protegê-los dos “ruins”], os Blackwood vivem num mundo de fantasia sem conexão com a realidade: Connie em sua cozinha, Merricat com seu companheiro de conspirações e aventuras “seu gato Jonas”, e Tio Julian com seus papéis e reminiscências. Sob uma rotina de excentricidades bizarras são felizes em seu paraíso intocável até que... o primo Charles chega e quebra a ordem caótica. OMG!

Para Merricat, o primo Charles é “O Estranho”, ela sente suas “quintas” intenções em relação a Connie e declara: ele tem que ser banido. Assim passa a usar seu arsenal de rituais bizarros contra Charles e transforma o dia a dia na propriedade num pandemônio.

“A prima Mary não gosta de mim”, Charles comentou com Jonas novamente. “Fico me perguntando se a prima Mary sabe como é que eu acerto as contas com quem não gosta de mim.”

“A cova acomodaria com delicadeza a cabeça dele. Gargalhei quando descobri uma pedra redonda do tamanho certo, e desenhei um rosto com a unha e a enterrei no buraco. “Adeus Charles”, me despedi.”

É hilário [pra quem vê de fora, você não ia querer estar lá, a coisa fica muito insana]. Merricat “atravessa” , desde o início já vemos que ela tem uns delírios surreais, mas a bipolaridade ativada a 360° sem ninguém pra controlar hummmmm... Charles revida, Merricat contra ataca, Connie sorri, Tio Julian surta, Connie sorri, as coisas ficam quentes, mas tão quentes que o clímax só podia chegar onde chegou.

Fora a ação direta que é uma piração alucinante, nas entrelinhas Jackson explora o terror no sentido psicológico do isolamento, do medo, da culpa, da codependência, da histeria coletiva, da conivência, da exclusão, da ganância, e por fim da redenção. Tudo isso numa carpintaria dramática gradual, enxuta e genial.

Incrível como um livro Publicado em 1962 pode ser tão atual, entretanto o mais impressionante é como Shirley Jackson conseguiu em poucas páginas tratar de temas tão complexos com maestria. Não é a toa que influenciou autores como Gaiman e King.

Extraordinário, impactante e perfeito.

Essa leitura foi uma cortesia do Grupo Companhia das Letras.
Aguardamos seus comentários! By.:.

3 comentários

  1. Rosem!
    O livro foi lançado antes de eu nascer, bacana! Nasci em 1965.
    Difícil viver de passado e se trancar em uma redoma, não permitindo que a atualidade e a realidade se façam presentes.
    O mundo pela visão de Mary parece bem ilusório e confuso, fico me perguntando se ela não tem algum distúrbio psicológico?
    Agora todo livro que traz reflexão sobre a vida, acredito que valaha a pena ler, pois podemos questionar nossos pontos de vista.
    Desejo um mês repleto de realizações e um domingo de alegrias.
    “A sabedoria é um adorno na prosperidade e um refúgio na adversidade.” (Aristóteles)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE SETEMBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  2. eu ja li a trama por algumas outras resenhas, apesar de bem escrito não é uma trama que me atraia
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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  3. Tenho vontade de ler esse livro é muito mencionado no livro Juntando os pedaços. Achei diferente essa familia e suas particularidades. A protagonista parece ser ireverente fiquei me perguntando se eles são estranhos mesmo ou eles que se acham assim.

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